CASAS NOVAS NÃO TÊM FANTASMAS - POR WESLEY STUTZ

 Durante a primeira metade do século XX, o desenvolvimento da arquitetura moderna, com toda sua objetividade, despojamento formal e desenvolvimento de materiais e tecnologia, trouxe em seu bojo a ideia da transparência literal como parte de sua estética. Com grandes áreas envidraçadas, nela estava contida a metáfora de transparência nas relações humanas e do ser humano com a natureza. Arquitetos que eram referência na arquitetura que se desenvolvia rapidamente, como no caso de Mies Van Der Rohe, desembarcaram nos Estados Unidos para lecionar e projetar seus trabalhos em um terreno que se mostrou fértil para o desenvolvimento daquele que ficou conhecido como “Estilo Internacional”. Grandes corporações adotaram as ideias modernas ao construírem enormes arranha-céus para suas empresas e, assim, o espaço de trabalho corporativo se tornou a metáfora da transparência do trabalho dessas empresas. Hoje sabemos que a transparência formal não corresponde necessariamente aos métodos de trabalho ou aos valores de uma corporação, ainda que esse tipo de estética arquitetônica tenha se espalhado por quase todo o mundo.

Ainda na primeira metade do século XX, Walter Benjamin criticava o vidro como “um inimigo tanto da propriedade quanto do mistério” (WISNIK, 2018, p. 7). Ao desvelar as aparências, mesmo que se interponha como um limite físico, o vidro promulgou, ainda para usarmos uma expressão de Benjamin, na perda da aura. Benjamin se referia com isso a uma espécie de status conferido às obras de arte que encontrou, na reprodutibilidade técnica de sua aparência, uma mudança do impacto da imagem sobre as pessoas. Invoco o modernismo arquitetônico e a citação de Walter Benjamin aqui porque, em muitas de minhas conversas com Chico, o artista demonstra sua preocupação com a perda do mistério. Com isso quero dizer que, o fato de vivermos um período histórico, em que a superexposição a dados, o acesso ao conhecimento de mundo na palma da mão (por meio dos aparelhos celulares conectados à nuvem – ainda que o nome nuvem seja sugestivo da falta de clareza, isso não implica em mistério), temos a sensação de que temos conexão direta com as verdades do mundo. E essa sensação é falsa!

O mistério que nos causava surpresa, emoção, desejo pela pesquisa ou pela descoberta esvaneceu. Me recordo do poema Arquitetura funcional, de Mario Quintana: 

Não gosto da arquitetura nova

Porque a arquitetura nova não faz casas velhas

Não gosto das casas novas

Porque casas novas não têm fantasmas; 

[...] Tu nem sabes
A pena que me dão as crianças de hoje!
Vivem desencantadas como uns órfãos:
As suas casas não têm porões nem sótãos,
São umas pobres casas sem mistério.

Como pode nelas vir morar o sonho? (QUINTANA, 2005, p. 50)

 

Chico Santos elabora proposições artísticas que se inserem entre essas questões. E o que a arquitetura moderna tem a ver com isso? As lendas inventadas e propostas por Chico tem como elemento central a casa! E não são apenas casas cheias de mistério, tal como Quintana aponta em seu poema, pois são elas próprias o mistério. As casas de Chico não rangem o piso de tábua corrida sob nossos pés, pois elas surgem da mata, de onde eram extraídas as árvores que serviam de matéria-prima para as tábuas e, rugem, pedem que as árvores sejam mantidas ali mesmo. Casas/criaturas emergem dos rios e das matas, como entidades de velhas lendas que habitam um hiato entre nosso passado indígena e um passado mais recente, de colonizadores que construíram suas vidas, e nossas cidades, a partir deste, que para eles era aquele misterioso mundo novo. 

Me recordo de meu pai contando uma das histórias de sua juventude, em que um cavalo que montava viu um papel branco dançando sob ação do vento na estrada de terra, no meio da noite e, fugiu em disparada. Meus ouvidos de criança se atentavam para histórias como essa e se questionavam, ingenuamente, se o papel não seriam realmente um fantasma que apenas o cavalo poderia perceber. São lacunas como essa, perdidas em nossas memórias que o trabalho de Chico deseja ocupar. Ao mesmo tempo, seu trabalho não solidifica naquele passado remoto, transmitido oralmente, pois, o artista não conta casos registrados. Ele cria suas próprias lendas. E as dissemina. As coloca na boca do padre e assiste ao padre contar para a comunidade como uma verdade e metáfora da moral cristã irrefutável! Chico resgata a função social das lendas de diferentes etnias, as tradições orais de um passado interiorano, não tão remoto e, produz Fake News, pós-verdades. Termos criados para discutir relações sociais duvidosas que nos permeiam nos últimos dez anos, em todo o mundo, não apenas em situações locais, como muitas vezes as lendas o faziam.